O que fazer diante do encontro com vidas há tanto tempo institucionalizadas, muitas sem histórias e perspectivas? A série Memórias da Desinstitucionalização tem o objetivo de tornar público breves relatos sobre a saída de pacientes de longa internação do hospital psiquiátrico. Apresentamos fragmentos de trajetórias de vidas de pessoas que puderam novamente habitar a cidade, tanto pelo retorno às suas famílias, quanto pela ida para residências terapêuticas, após grandes períodos de isolamento e exclusão social. Tais relatos são testemunhos de uma aposta, em ato, de que todos podem prescindir da instituição hospitalar, ocupando novos espaços e tecendo novos laços sociais. Entre 2010 e 2020, a partir de um trabalho em rede, foram realizadas 285 desinstitucionalizações. O investimento diário tem como horizonte uma sociedade sem manicômios, mais humana, plural, solidária e aberta às diferenças. Cada uma das pessoas retratadas nesta série é parte do processo de construção da memória dos caminhos e descaminhos do cuidado com a loucura, no Brasil. Com isso, o Instituto Municipal Nise da Silveira, que tem como principal diretriz de trabalho a desinstitucionalização dos pacientes, em parceria com os serviços da Rede de Atenção Psicossocial, caminha para a consolidação de sua desconstrução, valorizando e investindo cada vez mais em ações de memória, arte, cultura, e de formação acadêmica e profissional para o campo da saúde.

Maria da Conceição chegou ao Centro Psiquiátrico Pedro II em 1977, trazida pela polícia por estar vagando nas ruas. Sem registro de familiares ou pessoas próximas, entra na instituição onde passaria grande parte de sua vida. Neste mesmo ano, uma breve menção em prontuário refere que Maria da Conceição teria tido um filho durante a internação e que o mesmo havia sido entregue para adoção, indicando que possivelmente a mesma chegara gestante para admissão. Maria da Conceição tinha 35 anos e, assim como este filho, sua história pessoal vai desaparecendo a partir do momento em que passa a compor o lado de dentro dos muros. Durante esta trajetória, passou por muitos setores, dentre eles o Pavilhão Odilon Galotti, à época, o destino final de muitos pacientes considerados indigentes. Maria da Conceição foi destituída de tudo, se tornando mais uma desconhecida a perambular pela instituição a catar guimbas de cigarro. Depois de passar a metade de sua vida institucionalizada, já curvada pelo peso da idade e do hospício, pôde voltar para o lado de fora, redescobrindo a cidade a partir de sua ida para um Serviço Residencial Terapêutico. Apesar de abatida, aos 74 anos, pôde dar os braços a novas parcerias e recomeçar.

Ainda menino, logo após completar 7 anos de idade, Roberto foi internado no antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, em 1969. Apesar de resistir à passagem do tempo, mantendo um sorriso e uma expressão jovem, Roberto passou 49 anos seguidos de sua vida em uma instituição asilar. Mesmo com dificuldades, a irmã mantinha em sua fala o desejo de poder um dia levar o irmão para viver com ela. O tempo passou para os dois e vimos que, embora genuíno, esse desejo estava cada dia mais distante de se realizar: ambos envelheceram e as condições de vida mudaram. Decidimos, então, que sua alta era inadiável. Ao construir coletivamente o projeto de desinstitucionalização, nos perguntamos inúmeras vezes como poderia ser conduzida da melhor forma possível sua saída do ambiente institucional depois de passar a vida internado sem viver “do lado de fora”. Também sem adiar, Roberto respondeu à altura do voo que estaria por vir, saindo sorridente e sem olhar para trás. Não retornou daquilo que era apenas uma licença, uma primeira experiência de ambientação na residência terapêutica. Foi ele, então, a pedir licença e se autorizar a não voltar mais para o hospital.

Até hoje um pequeno bilhete grampeado à folha do prontuário resiste ao tempo, e mantém o registro: “José diz que no Ceará morava em Hidrolândia, próximo a cidade de Sobral, e que morava com a família.” Fato é que, internado desde 1997, se sabia muito pouco sobre essa família e sobre a história de José. Após 28 anos de buscas por um pai desaparecido, Karina. fez contato pela página do facebook do Instituto Municipal Nise da Silveira, onde pudemos, surpreendentemente, dizer a ela que seu pai havia estado internado por muitos anos e que agora se encontrava num Serviço Residencial Terapêutico. Sua ida para tal serviço se deu a partir de um intenso investimento e aposta nas possibilidades de José. Além do pequeno pedaço de papel, o desejo do reencontro também resistiu ao tempo e à distância, tanto por parte de José que mantinha a família em seu discurso, quanto por parte da família que não desistiu de procurá-lo mesmo depois de tantos anos sem notícias. Sua filha, então, deixa o Ceará e vem ao encontro do pai. Não se sabia é que esse trabalho de desinstitucionalização alçaria voos mais altos e que faria da procura, um encontro. Após um breve pouso da residência terapêutica, José voou de volta para sua família, para o seu lugar, em Hidrolândia, no Ceará.

Marcos Antônio estava há 20 anos internado. Adoeceu ainda na juventude, após servir o exército. Teve inúmeras internações em hospitais psiquiátricos no Rio de Janeiro, mas nunca chegou em um tratamento regular em ambulatório ou CAPS. Nesses anos de internação recebia visitas regulares de seu irmão, mas há 10 anos não via sua mãe por conta do adoecimento da mesma. Suas irmãs também não o viam há mais de 20 anos. Foi com uma visita à sua casa, para reencontrar a mãe que ele dizia estar morta, que Marcos pôde escutar junto com a equipe que ali na casa seu lugar estava guardado, que seu quarto o estava esperando. Foram meses com visitas semanais para que ele pudesse se acostumar novamente com aquela casa da infância, mas que estava tão diferente, assim como sua família conhecer esse Marcos, também diferente e agora mais velho. Foi preciso um tempo para a marca da violência que suas crises na juventude deixaram, dessem lugar a este senhor tão sorridente e galante que agora a família encontrava emocionada. Agora, Marcos é aquele que cuida do jardim, que limpa a casa, que ajuda a todos, que varre o CAPS diariamente como seu “trabalho” – conforme ele mesmo nomeou. É aquele que a presença reúne a família no final de semana para festejar. Marcos pôde enfim voltar pra casa, depois de tantos anos dizendo que era o hospital seu lugar.

Osmar desde menino começou com algumas mudanças em seu comportamento, alternando momentos de riso e choro. Essa transformação data da ocasião em que perdera seu pai vítima de bala perdida e da violência no bairro onde moravam. Aos 15 anos, Osmar perdeu não apenas o pai, mas também sua orientação no mundo. A fala de uma vizinha refere que a pergunta de Osmar era: “o que vai ser de mim? Como vou ficar?”. Após esse momento, uma irmã se apresentou como suporte, mas o processo de adoecimento se intensificou e Osmar iniciou um tratamento psiquiátrico. Alguns poucos anos depois, aos 22 anos, fora internado sem previsão de retorno ao lar. De um menino que ia a praia com amigos, soltava pipa no bairro e estudava, Osmar iniciou um outro caminho, mais fechado e menos comunicativo. Após 19 anos de internação, do reencontro com a família que havia “apagado da memória” a existência de Osmar, como contam, abriu-se a possibilidade e o desejo de fazer diferente, de poder novamente estar juntos dado o afeto que se manteve vivo apesar dos anos de afastamento. Aos 44 anos, Osmar voltou a viver com sua família. Sua irmã hoje relata ser “uma grande vitória” ver o irmão como viu no passado e hoje em sua casa vivendo com eles, no seu ritmo e no seu jeito próprio. Das fotos, são os sorrisos os primeiros a se apresentarem! O restante, seguem construindo e reconstruindo juntos diariamente.

Após 45 anos ininterruptos internado em diversos hospitais psiquiátricos, essa imagem registra uma bonita etapa da desinstitucionalização de Fausto aos 65 anos de idade, em seu retorno para casa. Voltou a viver com sua família, sempre afetuosa e desejante, mesmo tendo ouvido de profissionais que não teria outro destino para Fausto – ainda em sua juventude – a não ser seu afastamento da sociedade. À medida que as instituições foram fechadas e Fausto transferido para outras Unidades, a família se mudou de bairro em bairro para estar mais perto dele e assim poder acompanhá-lo semanalmente. Fausto, já apagado e abatido pelo longo percurso dentro de instituições, precisou relançar seu desejo na vida e reconstruir seu lugar para estar em uma casa com sua família. A partir de um intenso trabalho de investimento na desconstrução de uma lógica e na construção de outra, Fausto pôde prescindir de um aparato hospitalar e nomear seu enlaçamento com o serviço de cuidado territorial, um Centro de Atenção Psicossocial, como “o lugar de tomar ar puro”.

Jorge chegou ao hospício aos 17 anos de idade e só saiu aos 61. Por décadas nunca se soube de familiares ou pessoas próximas que pudessem falar de sua história. O que soubemos depois é que na ocasião do falecimento da avó, Jorge foi internado por uma tia e as outras irmãs separadas por outros destinos. Nunca mais tiveram contato. A partir do testemunho pessoal em uma igreja feito por uma funcionária a respeito de seu trabalho no Instituto, uma mulher se levanta e conta a história do irmão desaparecido na juventude. Em um pedido de ajuda, essa senhora que desde seus 18 anos não via o irmão, passa as características pessoais do mesmo e a funcionária logo desconfia reconhecer de quem se tratava. Após mais de quarenta anos sem nenhum contato ou notícia, a família procura a instituição esperançosa em encontrar a pessoa cujas características lembravam aquele irmão desaparecido. Com todo cuidado, a equipe recebeu essa senhora no Instituto para acolher essa história e localizar se era a mesma pessoa em questão. De longe, a senhora, absolutamente emocionada, avista o irmão e afirma ter certeza de ser ele a pessoa que sumiu de suas vidas sem que soubessem qualquer paradeiro. Do encontro, Jorge que não tinha ninguém, passou a receber a família inteira e a ter períodos de licença em casa. Essa irmã fala: nós fomos “família separada”. Uma família cheia de afeto, de esperança e de disponibilidade em reconstruir com ele tudo que não puderam em todos esses anos. Após 44 anos seguidos de internação psiquiátrica, Jorge voltou para a casa de sua irmã aos 61 anos de idade. Sobre sua vida em família, a irmã fala “está uma vida maravilhosa, tranquila, porque só de botar a cabeça para funcionar e o coração para pulsar, para mim é tudo”.

Antônio Jair tinha 22 anos quando deu entrada no hospital psiquiátrico para só sair 35 anos depois. Muito inteligente, porém quieto e calado, cursava faculdade de Química no momento em que as coisas em sua vida começaram a mudar de rumo. A história de seu adoecimento psíquico bem como seu prontuário são permeados pela presença de repetidos exames, tomografias, raios X e diferentes hipóteses diagnósticas que pareciam tentar responder ao enigma do que tinha se passado com sua química, o que explicaria tamanha mudança de comportamento. As palavras se tornaram confusas e Antônio, já no início dessa primeira e única internação que durou grande parte de sua vida, começara a falar um idioma próprio, pouco compreensível aos demais e que já chegou a ser nomeado pelo mesmo como “recurso linguístico”. Tantas décadas depois, Antônio Jair pôde sair para uma residência terapêutica com apoio das equipes do CAPS Clarice Lispector e Instituto Municipal Nise da Silveira, recomeçando, assim, sua invenção de novos e criativos recursos de se fazer compreender nesse mundo.

Santana chegou ao antigo Centro Psiquiátrico Pedro II em 1980. Sem familiares, sem conhecidos e sem uma biografia, foi trazido por policiais que relataram tê-lo encontrado sozinho na rua. Aos poucos, foi possível localizar que sua história de institucionalização começou aos 02 anos de idade na Fundação Romão de Mattos Duarte, um orfanato, de onde saiu apenas aos 18 anos diretamente encaminhado para antiga FUNABEM (instituição para menores) em 1976. De instituição em instituição, Santana, como tantos, viu seu destino desaguar no hospício, lugar onde cabia tudo e nada. Durante o trabalho de desinstitucionalização em que tanto usamos o recurso de dizer que, finalmente, a pessoa irá para uma casa, foi preciso construir com Santana essa ideia. Que registro ele tinha de casa? Foi preciso elaborar, apresentar e construir tijolo por tijolo uma referência. Casa pode ser uma ideia conhecida e banal para muitos, mas não para aqueles que tiveram sua história marcada pela vida em instituições. Foram anos de investimento em um cuidado mais singular, sempre na direção de uma vida que, no horizonte, pudesse prescindir do hospital psiquiátrico – o que se deu somente este ano quando se abriu a possibilidade efetiva, na rede, de sua saída para uma residência terapêutica no território. Fazer morada em um lar, em um lugar onde é possível escolher a hora de comer, de dormir, a roupa a usar, o momento do café, servir a própria refeição, são pequenos atos e banalidades do dia-a-dia que executamos sem pensar e que dizem diretamente da cidadania, do direito perdido por aqueles que tiveram suas vidas atravessadas pelos hospícios. O trabalho de desinstitucionalização, dentre tantas coisas, é justamente o de devolver a um sujeito o direito sobre as pequenas banalidades e escolhas do cotidiano. Santana, sempre galante e sorridente, foi bordejar pelo bairro, escrevendo novos rumos para sua história!